Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A existência dos vivos enquanto mortos.

Por que motivo sombrio e sórdido teremos de permanecer nessa vida? Aliás, será que podemos chamar de vida esse definhamento? Meus únicos passatempos são ver novos tipos como eu ressurgindo a todo instante, tão freqüentemente quanto nascem os humanos, e cogitar que inspiração divina ou casual nos pôs nessa situação decrépita, nesse jogo incessante de absurdo mal gosto.

Permita-me explicar, mas sou dos que não estão vivos: zumbis, mortos-vivos, demônios, anomalias... Como queiram. Tenho certeza de que já ouviu falar de nós. Estivemos – posso usar o plural, mesmo que nessa época eu ainda não fosse um de nós – bem, estivemos nos jornais, falaram diariamente de nós e depois nos esqueceram, como pratos que perdem o sabor ou roupas que perdem o brio. Não peguei o momento de fama, a época do frisson; azar! Que me importa agora?! Agora é só o tédio, como em todas as existências.

Contento-me, nestes momentos de ócio, ou seja, quase o tempo todo, em escrever, catalogar e divagar. Coisas que fazia com freqüência antes de me enjaularem nessa decrepitude ambulante.

Há, entre nós, vários tipos:

1) Os arruaceiros: são, em geral, os que mais chamam atenção. Alguns já tem o cérebro tão avariado que nem sabem o que estão fazendo. Mas a maioria sabe muito bem o que busca. Eles se aproveitam, digamos, de sua situação invulgar e apavorante para assustar, assaltar, praticar estupros e outras violências, como crianças sem critérios. Agem como vermes asquerosos, amorais. Entretanto, são eles nossa referência, nosso cartão de visita. A maioria dos vivos não pensam em nós senão nestes termos.

2) Em segundo lugar existem os normais. Embora estigmatizados pelo exibicionismo dos arruaceiros, estes são a maior parte de nós: pacatos, tristes, entediados, exasperados pela incessante surpresa da nova situação... Jamais conseguem sair deste torpor, coitados. O momento de êxtase e o choque da descoberta causam-nos uma paralisia agitada, convulsa, delirante... Não conseguimos reconhecer quem somos e porque estamos dessa forma... Vivos, embora mortos. É a mais aterradora das experiências! Ninguém que já tenha passado por isso sabe explicar a sensação. Os normais jamais conseguem superar esse estado de paralisia; sobrevivem numa inércia cerebralmente agitada e incrédula até o fim. Parece-me que suas novas existências não passam apenas de um prolongamento de suas existências anteriores como humanos: melancólicos e apáticos.

3) Por fim, em minha lista, temos os inconformados iludidos... Ah, quão irônicos eles são! Querem acreditar que ainda têm vida; lutam para prosseguir nessa existência sem sentido, para amenizar e retardar essa decadência. Alguns são ilustres; Tiveram anteriormente uma vida de intelectuais, tal qual eu. Aparecem hoje na TV bradando sobre “nossa causa”. Pedem respeito, tolerância. Para quê?

Claro que essas categorias são apenas uma catalogação sistemática e ideal da minha mente. Em realidade, um arruaceiro sempre pode substituir um dia de bagunça por um pouco de reflexão e um intelectual pode chegar a um ponto de loucura tal que o leve a agir como um delinqüente.

Sim, pois definhamos. Nossa nova ¨vida” é quase que praticamente apenas isso. Precisamos do nosso cérebro para raciocinar, mas nosso coração não bate; gostamos de nossas bocas para engolir coisas, mas não muitos de nós nem língua possuem mais; não sentimos sabor algum, porém gostamos de fazer tudo que nos traga a recordação dos sabores perdidos. Essa é a constatação mais certa acerca de nós.

Permitam-me explicar melhor. Nossos corpos de defuntos continuam em seu processo de putrefação, contudo, de uma forma muito mais lenta. Essa decomposição demora em média de 5 a 7 meses e conseguimos utilizar nossos corpos até certo ponto. Os que conseguem atingir a velhice e a maturidade do post-mortem estão tão decompostos, toscos e suas carnes tão dilaceradas que já não conseguem fazer nada, nem mesmo morrer, desfazer-se, matar-se(alguns pela segunda vez), sonho de muitos. E o pior: seus cérebros já foram reduzidos pelos vermes a um estado de completa inutilidade. Sobrevivem, débeis. Nessa fase, busca-se a morte avidamente – os desolados mais jovens na nova existência, por sorte e também coragem, ainda conseguem desfazer-se.

Depois de alguns meses, simplesmente se apodrece e não se serve mais para nada, como tudo que existe. Somos imortais? O que sei é que somos finitos, e inúteis nessa finitude.

Morremos primeiramente como humanos. A maior parte de nós, antes da ressurreição, chega a ser enterrada, lacrada em nossas caixas sempiternas. È certo que temos rareado, pois o Estado agora quer criar uma lei que obriga todas as famílias a cremarem seus mortos, e muitos, por temor, já seguem essa idéia. Todavia, uma hora, ao meio dia ou à noite, nos damos conta de que ainda estamos vivos e tentamos andar, sair. Debatemo-nos, arranhamo-nos, por algum milagre, escavamos a terra em direção à luz. Eu já vivi essa experiência. Levantei o meu rosto da terra e vi as inúmeras lápides ao meu redor. Os mármores e seus epitáfios se tornaram mordazes diante dos meus olhos que, com esforço, retornavam a ver. Eu sabia o que estava acontecendo. Senti uma fúria e um desconforto imenso por aquela injustiça. Olhei ao redor. Outros olhares aterrados, sujos de terra e lama, eram lançados aos céus, ao chão. Via-se a loucura nos olhos dos novos vivos. O sentimento de desterro invertido, o desespero causado pela reconciliação não almejada. Naquela noite, vi a raiva, a ira, a dor, a confusão e a insanidade. Era um lugar infeliz aquele, como infelizes eram aquelas ressurreições.

Por vezes e vezes voltei ao cemitério para ver os novos ressurretos. São sempre os mesmos olhares, fazendo-me recordar da noite do meu próprio retorno. Por vezes, vejo saindo de sua catacumba alguém que, como humano, fora mutilado. É preciso ter força e vontade para sair de sob o solo. Seres sem pernas que se rastejam, sem olhos, alguns amputados em uma orelha, algumas mãos com um ou dois dedos ausentes emergem de sob o solo ao solo, ao sol... Nunca vi nenhum sem braço conseguir emergir, e já imagino por quê.

Um prazer indescritível percorre o meu corpo nessas ocasiões. Sou um homem quase feliz diante desse divertimento. Sinto espasmos de riso e torno-me quase humano em meu prazer e sadismo.

Mas agora eu preciso ir. Abandonarei esses papéis. Meu amigos chegam e nós precisamos espalhar um pouco de terror entre os vivos odiosos; saquear e ferir. Teremos uma noite de formidável violência. Afinal, pouco tempo me resta ainda e é preciso viver. É preciso viver a todo custo, ó, meus irmãos.

sábado, 19 de julho de 2008

Trilogia dos Tempos Históricos: Futuro

O Vendedor do Mar

Pelo tempo de meu nascimento, havia na província um velho homem que, perambulando de aldeia em aldeia, anunciava a todos os ares ser ele o vendedor do mar. Talvez por jamais haver encontrado ninguém digno ou rico o suficiente para pagar pelo excelente produto, habituei-me desde pequeno a vê-lo passar de tempos em tempos, carregando sempre o mesmo discurso, trazendo sempre, da boca aos ventos, a maravilha da sua oferta.

Precisamente no dia do meu aniversário de dez anos, enquanto brincávamos eu e meus amigos nas colinas altas, eis que o ouço dizer pela primeira vez o valor que desejava obter pelo mar. Era uma soma vultosa! Considerando, todavia, a extensão do objeto, impossível haver preço mais exatamente justo.

Embora não houvesse ali ninguém além de nós, crianças incompletas, vendo o velho homem bradar acerca do mar àqueles que desejassem alcançá-lo, por incalculável quantia e extrema honradez, pareceu-me que aquilo fora dito tão somente a mim – e talvez fosse eu, dentre todos os presentes, seu único ouvinte. Sabia que, no final, sem falta, se eu o merecesse, tomaria das mãos do homem o mar, que mo daria de bom grado, pelo preço justo. Sentia como se suas Palavras fossem dirigidas exclusivamente a mim, trazidas pela mesma brisa que agitava as ondas.

Assim, a partir daí, sempre que avistava o mar, do alto das colinas, sempre que nele me banhava ou sobre ele navegava nos pequenos barcos pesqueiros, sempre que avistava as ondas assombrosas e altivas rebentarem-se na areia diante dos meus pés, sempre que degustava um saboroso peixe ou fruto do mar – que rapidamente se tornaram meus alimentos favoritos -, invadia-me a ânsia pelo dia em que tudo aquilo poderia ser chamado claramente de meu; agitava-se em mim a firmeza da necessidade de diversas obrigações que deveria me impor se quisesse receber, das mãos do vendedor do mar, a posse daquela existência. Cresci então fascinado por aquela oferta; ansioso para tomar sobre mim os encargos dessa fantástica conquista.

Não tive filhos; jamais me casei; não permiti que um instante sequer me desviasse do meu projeto, ou melhor, para ser mais correto e sincero, fui aprendendo a permitir cada vez menos que eventos e distrações me desviassem deste caminho que reina sobre mim, desconhecido por todos.

Tornei-me rico e bondoso. Sei que todos me considerariam um louco se soubessem da intenção final de cada ação de toda a minha vida e que vêem em minha prosperidade o fim mesmo de meus desejos e atos. Tenho também consciência de que, caso soubessem de minhas inclinações mais íntimas sem que duvidassem da estabilidade de minha sanidade, considerariam uma loucura, isto sim, as freqüentes esmolas que distribuo caridosamente entre os pobres de nossa aldeia. A loucura fez de mim um homem bom; e isto, a eles, seria incompreensível: uma vez que aquilo que desejo é tão grande e de tão caro valor, não seriam um desperdício estes gestos filantrópicos? Contudo, estou convicto de que, para adquirir o meu sonho, terei de apresentar uma vida digna e sensata ao vendedor do mar, pois apenas uma alma nobre pode possuir algo tão imenso.

Com o tempo, tornei-me também reflexivo. Aprendi a admirar o mar, os homens, a criação e a terra, mas sobretudo o mar. Ouvi silenciosamente o homem do mar todas as vezes que por aqui ele passou, sem jamais lhe dirigir Palavra alguma. Acredito seriamente que, por não haver ninguém corajoso ou abençoado o suficiente para assumir as responsabilidades de seu pedido, eu sempre fui o único a escutá-lo.

Agora, avançado em idade e já no fim dos meus dias, como não tive filhos, não tenho dúvidas de que terei de inspirar em alguém o desejo pelo mar após minha morte, quer eu consiga ou não obtê-lo, pois, apesar de rico e bondoso, não sei se os sou o bastante aos olhos do vendedor do mar.

Quando tudo estiver então completado, quando tiver por fim em minhas mãos todo o necessário para apresentar-me a ele como um grande e sublime homem, sei que ele virá até mim, me dará o mar e tomará tudo o que tenho, legando-me o peso do que foi sua posse. Sei que ele não pode cessar sua busca. Entretanto, temo que, antes da chegada desse instante, eu já não me conte entre os vivos.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Tetralogia do Assassinato: O Duplo.

___Todos seguiam normas bem sólidas em todos os quartos da pensão de três andares da Rua Santa Cecília, nº 12. Mas eram ainda mais consistentes as normas que regiam as vidas de cada um dos moradores dos dois únicos quartos do primeiro andar. Moravam ali há muito tempo o Sr. Esaú e o Sr. Jacob. Embora vizinhos, toda ligação que possuíam era composta pelos jogos de cartas nas quintas à noite, algumas Palavras sem substância balbuciadas quando se encontravam na porta ou na escada, e uma habitual troca de alimentos quando necessário. Mesmo nas noites de jogo, sempre preferiam se trancar num concentrado laconismo. Falavam pouco mas jogavam muito bem: e assim uma noite na semana desaparecia rápido e fazia um pouco de sentido.

A amizade corria tranquilamente, pois era sustentada em tais obrigações sólidas, mas completamente leves, como arrumar bem as cartas e a mesa depois de cada partida. E a mais necessária era que não se perguntasse nunca como o Sr. Jacob conseguira a contundente e hedionda cicatriz que lhe enfeitava o rosto. Isto, com o tempo e a freqüência da visão daquele rosto talhado da bochecha ao alto do olho direito, foi ganhando cada vez menos importância. Certamente, no princípio Esaú se sentira curioso em saber como o amigo adquirira aquela marca, mas ainda não se sentia suficientemente íntimo para perguntar. Quando já se acreditava assim, simplesmente não se interessava mais por isso. Agora não se lembrava mesmo de jamais haver tido qualquer interesse pela cicatriz, como também não se lembrava sempre do aluguel e de outras coisas. E nada disso realmente importava para ele, desde que se jogasse cada partida com sagacidade e vigilância.

Diz-se por aí que, certa vez, quando ainda era novato na pensão, a senhoria insinuou perguntar ao Sr. Jacob sobre a cicatriz... E ele se tornou tão horrivelmente irritado nesta ocasião que substituiu seu habitual mutismo por um jogo de Palavras sussurradas, mas perfeitamente audíveis, cheias de imprecações contra todos os que passavam por perto; um jogo de murmúrios que durou todo o dia. Nunca mais se pensou em perguntar nada daquilo; e o Sr. Esaú fora avisado sobre isso logo nas primeiras semanas em que se alojou na casa.

A senhoria, uma mulher robusta e esperta, morava em todo o último andar com seus quatro filhos (que pareciam incontáveis quando começavam a correr pelo prédio). No andar térreo, ao lado do portão da escada, possuía um bar que administrava detrás do balcão em praticamente todas as horas do dia, deixando as crianças livres em suas brincadeiras. O Sr. Esaú as tolerava e Jacob simplesmente se esquivava delas.

Certo dia, porém, ainda em suas primeiras horas, aconteceu que a chuva correu por toda a cidade, e não permitiu, com suas ruas alagadas e problemas estruturais, que nenhum dos dois alcançasse seu trabalho. O Sr. Jacob ligou do telefone do bar para a marcenaria onde trabalhava, e pode perceber pela voz do patrão que ele calculava pela última vez quanto perderia num dia em que todos faltaram por causa da maldita chuva. O Sr. Esaú ligou para a loja de tapetes, onde sabia que era mantido apenas por piedade, mas ninguém atendeu. Estavam os dois a poucos anos da mirrada aposentadoria.

Naquele dia, decidiram ficar estendidos na mesa do bar e beber um pouco. Pediram cerveja e dois copos. Apesar da bebida, suas línguas não se tornavam mais soltas. Sob o toldo da frente e o teto um bom número de pessoas tentava se proteger do ameaçador e inconveniente temporal. O bar nunca esteve tão cheio! Um grupo de estudantes entrou e atraiu a atenção dos dois; olhando para elas, os velhos murchos e invejosos aparentaram cobiça pelos anos longínquos da juventude. Mas, ao voltarem o olhar para seus copos, enrubesceram, e se tornaram ainda mais silenciosos e melancólicos.

Duas das crianças da senhoria brincavam entre os encharcados visitantes inesperados. Pela primeira vez o bar fervilhava. A senhoria passou um pano vermelho e velho sobre a mesa onde eles estavam, colocou os copos e disse:

- Será uma pena quando tiver que colocar toda essa gente para fora. Mas vai ter que ser assim ou daqui a pouco a água inunda toda a casa e vamos ter que nadar até nossos quartos.

Ela se achou engraçada, mas os homens ouviram quietos.

O Sr. Jacob saiu dizendo que em breve voltaria para uma partida. Passadas as primeiras horas da manhã, em que os mais medrosos e os mais afoitos se arriscavam a sair de casa, Esaú via as ruas desertas onde parecia correr um rio sobre o asfalto e pensou então que aquelas construções à frente voltariam a um estado anterior, quando não existiam e tudo era verdadeiramente deserto. Pensou que a água e o vento arrastariam telhados naquela noite, arrastariam muros e sufocariam casas com terras que desabam; os navios vacilariam no mar, e, no campo, árvores seriam lançadas ao chão e raios matariam alguém.

Perdido nesses devaneios, como o outro não retornava e para se desvencilhar do marasmo satisfatório e entristecedor em que se lançava, decidiu ele mesmo subir as escadas e ir começar o jogo. No espaço sob os degraus, ao qual chavamam com cortesia de armário, encontrou cabisbaixo o garoto mais velho, que era geralmente o mentor das brincadeiras dos irmãos, mas, segundo refletiu, não devia estar gostando daquele dia de chuva barrenta e incômoda.

Quando bateu à porta, ouviu com surpresa a voz bêbada do outro lado.

- Entre.

Jacob estava visível e transtornadamente embriagado. Contudo, seus gestos ainda eram calmos e conscientes. Indicou uma das cadeiras para que Esaú se sentasse.

- O que você quer eu sei. Eu sei o que você veio descobrir aqui em cima. Estão todos me devorando constantemente para que conte a história da minha cicatriz. Todos me olham sedentos para sugar minha vida. Basta pedir que eu te conto, ora. A você eu conto, pois é quase tão miserável quanto eu.

Sinceramente, Esaú estava contente em ver Jacob daquele jeito. Teria enfim o que lhe entreter naquele dia vazio. Sim, a chuva caia sobre toda a cidade, sem que nenhum jornal a houvesse anunciado previamente. Disse que sim, que sempre quis ouvir a história da marca, embora isso nem lhe passasse pela cabeça no momento. Gostaria era de saber como o amigo se embebedara daquela forma. Disse isto para poder se distrair: sim, quero ouvir a história sobre a cicatriz. Ficou contente pela situação do outro e pela distração inesperada. Sorriu.

Sentado sobre a cama com os olhos enormes, Jacob parecia mais sóbrio. Suspirou e começou sua história com voz firme.

“Eu ainda era muito pequeno quando os dois garotos de minha rua sumiram repentinamente. Não podíamos nos afastar para muito longe de nossas casas e devíamos sempre andar em grupo na volta da escola. Vivíamos sem poder correr dos olhares atentos de nossas mães.

“Ninguém sabia ainda o que tinha acontecido: nossas mães diziam coisas terríveis para nos assustar e nos manter na linha e davam consolos animadores e prósperos umas para as outras, principalmente para as mães dos garotos desaparecidos.

“Mas éramos crianças e não tínhamos os mínimos interesses nessas cautelas. Às vezes tínhamos mesmo invejas dessas crianças perdidas que podiam estar se divertindo bem mais do que a gente, num lugar sem preocupação e vigilância.

“Sei que desconfiavam de um homem que morava no fim de nossa rua, embora fosse muito pequeno naquele tempo. Entendia isso das frases baixas e entrecortadas que elas me deixavam ouvir. Só não sabia bem do que desconfiavam. Trabalhava em uma fábrica de alumínio e as mulheres suspeitavam dele porque era sério e não costumava conversar com os vizinhos, ao contrário de seus maridos e amantes beberrões cheios de piadas e gracejos imbecis o tempo todo.”

A voz de Jacob alteava-se e Esaú pedia que falasse mais baixo, não para acalmá-lo, mas para que pudesse saborear melhor a história. Se ele narrasse mais lentamente, podia perceber melhor em seu rosto o transtorno e as rugas que a história trazia à tona.

“Um dia, consegui escapar com um amigo das atenções de minha mãe e fomos brincar num riacho ao lado da minha rua. Sabia que ali não seria pego e que, caso acontecesse algo, eu poderia correr e, subindo por um caminho que julgava desconhecido por todos, rapidamente voltar para minha rua em menos de um minuto.

“Crianças nunca imaginam que seus caminhos secretos são, na verdade, caminhos que todos sabem onde estão e como chegar neles.

“Qual não foi minha surpresa quando vi atrás de nós um homem de expressão contumaz e sorriso atraente. Ele perguntou se nossas mães sabiam que estávamos ali e, claro, nós mentimos. ‘Sim, senhor. Elas sabem’. Sentou-se ao nosso lado e disse que podíamos continuar brincando, que não queria nos atrapalhar em nada. Apenas ficar nos observando brincar, era tudo o que queria. Eu devia ter menos de 8 anos naquela época, entende, Esaú? Bem menos de 8 anos.

“Tirou um pião do bolso e disse que poderia nos ensinar a melhor maneira e mais divertida de rodar o pião e empinar pipas. Ensinou-nos também a fazer brincadeiras com nossas sombras em posições engraçadas, enquanto contava histórias hilárias que nos faziam rir. Ele conhecia todas as histórias e imitava mil vozes. Ao terminar toda aquela encenação juvenil, que muito nos agradou, despediu-se e caminhou até o alto do barranco que levava a nossa rua. Ainda ríamos, eu e meu amiguinho, quando demos tchau. Estávamos felizes por conhecer um adulto realmente divertido.

“Já no alto, ele virou a cabeça para nós e sorriu. Voltou. Disse que conhecia um lugar onde nossas sombras formariam figuras tão legais que poderíamos pegar nelas como balões.

“O curioso é que até hoje não sei o que foi feito do outro garoto. Acho que correu sorrateiramente de volta quando cruzávamos, apressados, as árvores que fechavam o caminho. Quando me dei conta, estávamos eu e o desconhecido numa casa abandonada cheia de garrafas quebradas, sacos plásticos, seringas, papelões e outros lixos.

“Eu disse a ele que naquele lugar fechado não ia haver sombra nenhuma e ele era um mentiroso. Ele sorriu para mim e, inclinando meu corpo para o chão, disse que eu veria muitas sombras, sombras que jamais havia visto. Deitou-me com um golpe e colocou aquele corpo grande contra mim. Senti-o sujo.

“eu me debatia e pedia que parasse, que saísse de cima de mim, por favor. Como resposta, pôs uma mão em minha boca e guiou a outra até minha bermuda. Tudo isso fazia com um sorriso, um riso contente, dizendo que tudo ia ficar bem. Seu corpo pesava cada vez mais sobre mim. Eu odiava muito aquele homem e sentia muito, muito medo. Senti que lágrimas começavam a tornar estrelada minha visão. Por fora de seu gigantesco corpo, consegui pegar uma garrafa em minhas mãos pequenas. Ouvi o estalido do vidro quebrando e acho que ele também ouviu. Mas, rapidamente, antes que qualquer um de nós percebesse, fiz o sangue jorrar em seu rosto. Da meia-lua vermelha que abri em sua face gotas rubras caiam em meu rosto e na sua camisa.”

No chão, Esaú quedou-se assustado e boquiaberto. Comprimiu a cabeça contra as mãos, mas os seus lábios se esforçavam em traí-lo. Havia um tremor comprimido em todos os seus gestos. Sentia sua cabeça perdida diante das Palavras que já não discernia: “batida”, “chão”, “sangue”, “fuga”. Ouvia o som da chuva.

Sim, a chuva de todos os tempos e todos os medos caia no emaranhado das últimas frases do Sr. Jacob. A chuva real escorria pelas janelas, destelharia casas e lavava todas as ruas. Limpava enfim a poeira acumulada por inúmeros dias nas bordas do vidro das janelas. Lavava as paredes e as telhas. O Sr. Jacob levantou uma última vez os olhos baixos, marejados e vermelhos, e disse:

- Pronto... Todos podem me odiar agora.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

O Muro

“ela é bonita, não usa carmim”
Saint-Beuve


A garota do muro costumava passar boa parte da sua tarde sobre ele. Voltava da escola, almoçava, passava um tempo em casa arrumando o quarto ou mexendo em discos velhos da mãe e, depois, assim pela tardinha, lá ia ela para o seu muro. Adorava apreciar o sol desaparecendo em sua frente, sabendo que atrás as nuvens se arroxeavam até as primeiras estrelas começarem a aparecer. Devia ter uns 10 anos e, naquele ano, o hino da futilidade era alguma música da Britney Spears, mas ela gostava mesmo era da Madonna e da Cindy Lauper.
Naquela tarde, distraída por um disco do Cranberries, demorou um pouco mais para sair de casa. Chegando ao muro, o sol já coloria de tons laranjas vivos a parte bonita do céu no poente e um garotinho fazia xixi num cantinho da sua parede solitária, aquele próximo à árvore. Vendo-a, o garoto deu uma olhadela rápida - cínico! -, escondeu-se e fugiu. Quem ele pensa que é pra fazer xixi no meu muro? Como esse menino se atreve a molhar meu muro com seu pintinho? Ah, espera esse moleque passar por aqui de novo...
Os dias iam passando e o garoto sempre passava no finalzinho da tarde, ao voltar da escola, e ia olhando, cabisbaixo, a garota do outro lado da rua. Ela, sem se mover no seu muro, mirava sempre para frente.
Aconteceu que, uma certa tarde, o garoto parou na calçada em frente. Demorou um pouco, olhou os dois lados vazios, atravessou a rua, parou em frente a ela, de cabeça baixa. Ela abaixou a cabeça para o olhar, levantando-a logo em seguida. Ele olhava ora para os pés, ora para o alto, mexendo nas alças da mochila.
Baixou a cabeça, empinou a barriga para frente, segurando a mochila, e disse:
- Como é o seu nome?
- O quê?
- Qual seu nome?
- Isabela Carina.
- Hihi...
- Que foi?
- Nada... é que seu nome é estranho!
- Não é minha culpa, não fui eu que escolhi. E o seu? – ela abaixou a cabeça, fitando-o.
- Carlos Ludovico Neto. Gosto não: era o nome do meu avô.
Ela riu. E quando ria segurava bem firme a borda da parede e inclinava o corpo para trás. O menino continuou mexendo nas alças e brincando com os pés em pequenas voltinhas.
- Haha... Prefiro o meu, né?
Silêncio. Os olhos dos dois em coisas distantes.
- Você já beijou? – perguntou o menino.
- Por que você quer saber?
- Como foi?
- Um menino na escola. De brincadeira. Você é muito curioso.
- Eu também já. Hoje a professora foi se despedir de mim, e me deu um beijo bem aqui – e ele apontou um cantinho da bochecha bem próximo à boca.
Silêncio.
A menininha virou o rosto para trás, por um minuto pareceu que ela se esquecia dele ali. Depois, voltou-se e abaixou a cabeça para ele. Bailarinava os pés no ar; sorriu, brincando com o vestido rodado.
- Minha mãe sempre diz pra eu pensar numa cachoeira.
- A minha também diz isso.
Novo silêncio.
- Você tem irmão? – perguntou, inclinando a cabeça perto do ombro.
- Tenho. Um.
- Minha mãe disse que eu vou ganhar um irmãozinho.
- Meu irmão é muito chato e burro. Passa o dia todo escrevendo e-mails para a namorada cheios de exclamações triplas.
Ele não entendeu muito bem aquela informação e inclinou um pouco mais a cabeça.
- Você sabe brincar de morango invertido? – perguntou a menina.
- Não. Como é isso?
- Eu te ensino. Quer brincar? A gente pode ir no parquinho – e ela saltou do muro, e ajeitou o vestido. Vamos.
Foram andando, cada um em um canto da mesma calçada, distantes, às vezes lançando-se sorrisos tímidos de novos amigos.

sábado, 25 de agosto de 2007

Trilogia dos Tempos Históricos: O Despertar de Letícia ou Dos Perigos de Acordar Com a Língua no Teto

Certa noite, ao acordar de sonhos comuns, Letícia percebeu sua língua, por um prego velho, presa ao teto – e talvez doesse um pouco. Tinha metade dos pés apoiada num banco frouxo de madeira. Mais do que dor, sentia um certo constrangimento por aquela situação.

Não conheci os fatos (claro que não falava, pensava, pois falar não parecia adequado naquele momento). Fui posterior aos eventos e ainda assim os comentava, zombava deles, tecia opiniões. Achava-me entendida no que não vivenciei. Podia, então, puxar a língua para sair desse embaraço, mas isto poderia causar algum transtorno, como manchas difíceis no seu vestido (se bem que, de imediato, isso não conseguia alcançar: caso conseguisse puxá-la, a língua presa ao teto teria tanta utilidade quanto solta pelo espaço).

Só pude ouvir um lado, uma versão dos episódios. Inspirada por eles, por estes comentários espalhafatosos, subvertidos, hiperbólicos, fúteis e ardilosos, estas falas pernósticas e parciais, cheios de rancor e melancolia, achei-me conhecedora de toda psicologia e toda História.

E foi assim, presa ao teto, que Letícia compreendeu a multiplicidade do mundo. Não dá para atingir o que, sem mim, já se passou, e não posso me achar sábia pelo que apenas ouvi (Ela se sentia muito inteligente pela descoberta; contudo, continuava com sua língua apreendida ao telhado).

E não caia sangue em parte alguma...

E foi pela manhã que acordou enfim em sua cama, e, embora para infelicidade de alguns, com a língua guardada dentro de sua própria boca.

sábado, 4 de agosto de 2007

Tetralogia do Assassinato: O Interruptor

Há uma coisa que acho bem bacana. Sofisticado. Interruptores. Um simples toque para tornar a escuridão em uma luz majestosa ou aconchegante.
Considere um homem que esteve por muito tempo preso no escuro. Ele tateia as paredes. Encontra um interruptor e... Voilá. Fica cego por um instante com a nova claridade. E, acesa por outra pessoa, isto pode muito bem ser feito de sacanagem. O homem que esperava o trovão ou esfregava pauzinhos para conseguir um pouco de fogo, luz, olhando as estrelas já sonhava com interruptores. Tiffi. Basta um clique.
Dá muito mais trabalho quando você decide se envolver assim com a outra pessoa. A conheci num bar perto do cinema. Basta um olhar de Jhonny Deep e uns dez minutos de Fred Astaire. Ela é bem bonita. Jogada assim na cama. Mas mora sozinha, nesse apartamento. Me disse que seu James Bond favorito era o Roger Moore. Disse que o meu também. Menti.
- Cena de beijo?
- A Um Passo da Eternidade. E você?
- Um Corpo que Cai, do Hitchcock.
Estou sentado ao lado do interruptor que abaixo delicadamente, brincando. Um botão bem leve e pequenino pode ser levantado e abaixado com sutileza e o corpo lindo e lívido na cama é visto afundando na penumbra, sumindo na escuridão para, depois, ressurgir na claridade.
Quando diminuo a luz a última parte que vejo evanescer são seus pés. Pequenos e brancos. Dá muito mais trabalho. Arrancar as unhas, limpar cada coisa que tocou, procurar fios de cabelo. Excluir toda intimidade que tivemos.
Um dedo aciona um botão para cima ou para baixo e o que antes era invisível, inexistente. Agora pode ser visto. Começa a ser. É isso que faço agora. Não necessariamente pela brincadeira. É muito mais pela espera. Titubeio entre ficar aqui e deixar que me descubram ou descer as escadas e ganhar a rua. A primeira opção é algo que jamais experimentei. Já conheci todas as diversas formas de matar: pessoas conhecidas, desconhecidas (como esta), devagar, rápido, com e sem contato.
Eu tenho uma teoria: a vida é uma dádiva única e cada evento que ela puder nos dar deve ser experimentado. E é isso que busco. A experiência da morte, tida uma vez apenas, não pode ser relembrada, revisitada, não sabemos nem se poderemos apreciá-la plenamente quando se apresentar a nós. Não deveríamos passar. pela vida com tanta displicência. Inevitavelmente, não teremos outra. Decidi saboreá-la com todos os detalhes que ela me dá, no máximo de possibilidades que ela permite. E a morte de outro, o assassinato, é uma delas. Responder aos instintos e aos desejos, como crianças. Com egoísmo e inteligência.
Vi a garota sozinha no bar, conversamos sobre filmes e ela ria com tanta facilidade. Curvava a cabeça e ficava fazendo bolinhas no dedo com a borda do vestido. Não devia ter tomado tantos martinis. Gosto de senti com precisão o que faço, cada prazer e toque que recebo, sem a interferência de nenhuma estupefaciente. Quando saímos, me ofereci para ir com ela até seu apartamento. Sorriu, assentindo.
Me convidou para subir e continuamos conversando. Falávamos essencialmente sobre cinema.
Sabe aqueles filmes em que um cara vai casar em uma semana e uma garota está noiva de algum outro cara, mas eles se gostam apesar do compromisso com outras pessoas? No final, eles ficam juntos. Ninguém lembra dos abandonados. Porque somos egoístas, perversos, como crianças. Naturalmente, nossa própria vida é nossa óbvia prioridade. E por isso que não há maldade no que faço. Encerrar uma existência é. para mim. provar mais um pedaço de viver. Queria poder não deixar escapar nada. E sentir tudo de bom que ela tenha para mim.
Ela trouxe um cobertor delicioso para o sofá e pôs Jules e Jim para assistirmos. Nos acariciávamos. deixando o filme como um elemento superficial sem muito interesse. Foi maravilhoso. Todas as sensações que tive. Seus sorrisos. Começamos a transar e eu apertei seu pescoço com suavidade. Sem sair dela, levei seu corpo pequeno até a cama. Passava a mão no meu rosto com tanta beleza. Sufoquei-a com força e ela ainda sorria. Depois, seu rosto preso num espasmo de medo e prazer. O prazer imenso que ninguém deve deixar de experimentar.
Apago a luz novamente e hesito em frente dela.
Coisa incrível os interruptores.

sábado, 14 de julho de 2007

Cidade

Dois homens conversam em um bar na praça da matriz. Demófilo, um viajante de passagem pela cidade, jovial e contente. Filócrito, um morador da cidade, contente e cínico.

Demófilo: O que mais gosto nessa cidade é sua natureza explícita. Gosto como tudo aqui é escancarado e óbvio. O som é alto; as prostitutas bem expostas em momentos exatos do dia e da noite; a moral, o imoral e o amoral têm a mesma notoriedade, sem nenhum confronto típico de elementos subjetivos; os pedintes bem postos em cada esquina; o capital nítido e gritante correndo a toda pela cidade inteira. Nada aqui é tímido!

Filócrito: Não entendo o que você diz. Realmente pensa assim? Eu, particularmente, discordo. Essa é a cidade mais omissa, acanhada, distraída e cheia de vergonha que já pude conhecer. Sinceramente não entendo do que fala... Essa cerveja se expressa melhor que você.

Filócrito sorriu.

Demófilo: Claro que é como eu disse. Só estou aqui há três dias e só precisei de um curto passeio no primeiro para perceber a cidade por completo. Escancarada como uma puta sem calcinha e carente e suplicante na praça principal.

Filócrito: Talvez por isso que ela seja tão entediada. Em um dia já se vê e explora todas as suas possibilidades, não deixando nada além do enfado. Mas, não, não, veja bem, essa visão que teve é meramente superficial. Discordo de você. Encoste na mulher sem calcinha na praça pública e ela vai te responder com uma bofetada por ter confundido uma mulher de respeito com uma puta. Esta cidade pode até ser uma puta, mas aos olhos de todos - dela mesma - é uma mocinha acanhada tentando vencer em um mundo patriarcalista. Nunca vi lugar mais omisso e cheio de constrangimento do que este. Aqui nada é explícito. A cidade se deixa constantemente imperceptível e, não raro, se mente, maquiada.

Demófilo: Mas claro que não. Isto que diz é impossível. Este é um lugar comercial: e para vender é preciso chamar atenção. É só olhar esta praça para perceber tudo: o bulício das evidências não se esconde nem se camufla, explode. E tudo se mistura, bolando no mesmo quadro - gritante aos olhos - todos os elementos. Já que é para demonstrar que tudo aqui é proeminente, vamos olhar logo os menos visíveis. Preste atenção em todos os marginais por aqui: mendigos, beberrões, prostitutas e semiprostitutas, pessoas feias...

As garrafas de cerveja vão simpaticamente se multiplicando. A fala de um vira intervalo para o gole do outro...

Filócrito: Muito bem... Vamos olhar esta praça. Veja aqueles pedintes perto da igreja. Todos que passam por eles sequer os notam. Eles estão ali, algumas pessoas podem até atingi-los com seus olhos, mas isso não quer dizer que os vejam. Às vezes puxam a barra da calça ou da saia de alguém e tudo que recebem como resposta a uma impertinência dessas são passos que prosseguem como se nada houvesse acontecido. Veja as prostitutas que começam a sair dos hoteizinhos daqui. Ainda é cedo: cinco da tarde. E, mesmo assim, nem as passantes mais puritanas percebem que elas já estão na rua, que já querem alguém que possa lhes pagar a vida ou ao menos a noite. E preste bem atenção que um dos pedintes é aleijado: um pobre mutilado sem uma das pernas. Ou seja, até o grotesco se tornou superficial para nós desta cidade. Tudo é banal, ninguém liga.

Demófilo: Ora, Filócrito, o fato de que todos os passantes não observem ao seu derredor não significa que as coisas não estejam explícitas.

Filócrito: como uma coisa pode ser explícita, se invisível a todos os olhos?

Demófilo: A visibilidade das coisas está nelas, não no observador. Ah, Filócrito, você é muito cabeça dura. Veja só, está claro, nós que paramos só um minuto para discutir o assunto já conseguimos perceber tudo. As coisas estão aí, às claras; se não vêem é porque não querem. Você falou em mutilados. Outro dia, aqui, eu estava indo pegar um ônibus e tinha essa garota de cadeira de rodas sendo erguida pra entrar no ônibus. E eu a achei linda, cara. Muito linda e desejável, e eu sabia que aqui eu podia sentir qualquer coisa por ela, que eu podia achá-la bela e fascinante apesar de tudo, porque essa cidade simplesmente não esconde nada, o que te permite sentir tudo.

Filócrito: Porra, isso é conversa para se puxar numa tarde de bebidas num lugar feio como esse?! Cala a boca, veja as besteiras que já está dizendo. Como, numa cidade retardatária, provinciana e desgostosamente prepotente uma coisa como essa seria permitido? Você está doido, amigo.

Demófilo: Ah, tudo bem. Vamos mudar de assunto. Não dá pra discutir isso com você. Você é muito cabeça dura e perdeu a idéia das gratificações de morar numa cidade promissora como esta. Virou um desiludido.

A conversa se excitava, mas também já estava chateando. Dava para ver em ambos que queriam acabar logo com ela.

Filócrito: Quer saber de uma coisa, Demófilo! Você está doido porque está apaixonado por essa cidadezinha de nada. Sabe quando a gente transa com qualquer pessoa e fica aquele gosto estranho de terra na boca?... É a mesma coisa essa cidade; ela pode até te dar um ou dois orgasmos na vida, mas vai ficar é sempre esse gosto de terra e merda em sua boca. Fique por aqui algum tempo, e você vai ver.